Milton Cunha cresceu enxergando o futebol como um espaço rigidamente demarcado pela masculinidade viril, um ambiente hostil para quem não se encaixava nesse padrão. A aproximação com a história do Vasco da Gama mudou essa perspectiva de forma definitiva. O clube que em 1923 rompeu barreiras raciais ao escalar jogadores negros e pobres quando nenhum outro tinha coragem de fazer o mesmo carrega no DNA uma tradição de resistência ao preconceito que vai muito além dos gramados.
Essa herança histórica ressoa até hoje nas arquibancadas de São Januário. Enquanto o Vasco pressiona em busca do gol, bandeiras com o símbolo do clube estampado nas cores LGBTQIA+ tremulam nas gerais, uma imagem que seria impensável para o jovem Milton Cunha. O que antes parecia incompatível, a identidade gay e a paixão pelo futebol, encontrou no Vasco um ponto de convergência natural.
A trajetória de Cunha ilustra um movimento mais amplo de torcedores que veem no Vasco não apenas um time de futebol, mas um clube com responsabilidade social genuína. A representatividade nas arquibancadas cruzmaltinas é fruto de uma construção coletiva da torcida, que mantém viva a essência de um clube fundado para incluir quem outros excluíam.
O Vasco segue sendo, mais de um século depois de sua maior façanha social, um símbolo de que futebol e diversidade não são conceitos opostos. Para Milton Cunha e tantos outros, a Estrela Solitária representa a prova de que o esporte mais popular do Brasil pode e deve ser de todos.
